Sim, pessoal, eu sei, desculpem! Sei que já falei disso muitas vezes em nossa aula, mas
não consigo evitá-lo: preciso repetir a história. Não é possível falar de
inclusão e letramento digitais sem narrar a que foi a minha maior experiência
de (des)letramento e (des)inclusão digital que eu já vivi na minha vida. Estou
falando, obviamente, do dia que eu mexi o dedo nesse lugar tão desconhecido
para mim.
Com poucos
dias de ter chegado no Brasil, cada trâmite era em sim mesmo um universo para
conquistar: autenticar documentos, me registrar na polícia migratória,
matricular as disciplinas, encontrar uma casa, andar à Faculdade sem me perder,
aprender a diferença entre térreo e primeiro andar, e ‒ claro ‒ abrir uma
conta no banco. Esse último trâmite foi o mais surpreendente. Já verão...
Não só tive
que me enfrentar a pouca amabilidade da moça que me repetia que eu, sendo
estrangeiro, não poderia abrir uma conta, ainda que o resto dos meus colegas conseguiram
fazê-lo antes que eu; também precisei cadastrar o meu cartão no caixa
eletrônico, com um trâmite muito “simples” e “rapidão” de duas horas, que, além
do mais, requeria cadastrar “meu dedo”, e aí, galera, como falam os brasileiros, aí o bicho pegou e comeu.
Poucas
vezes me senti tão ignorante (“polo”, falaríamos na Costa Rica). Analfabeto e excluído.
Nem conseguia atender as instruções do funcionário:
- insira o
cartão,
- tire ele,
- insira de
novo,
- bote o
dedo,
- assim não (assim),
- ficou mal,
- bote de
novo,
- digite o
CPF,
- digite o
seu telefone,
- rápido, a sessão
vai expirar,
- não sabe o
seu telefone?
(eu: desculpa, comprei a línea hoje, sou um
desconsiderado)
(Na minha mente: Brasil e essa obsessão esquisita
com as mães. Mesmo para comprar um acarajé precisam o nome dela!)
- A sessão
expirou, vamos precisar repetir o procedimento todo.
E enquanto
isso acontecia, eu só pensava que queria chegar em casa para organizar uma chamada
de vídeo e contar para todos na Costa Rica que no Brasil é possível sacar
dinheiro do caixa eletrônico com o dedo.
Dias depois
soube que há muitas pessoas em Brasil que ainda não usam esses caixas por “medo”.
As sociedades modernas procuram a inclusão dos seus habitantes; elas querem
ter o que alguns autores chamam "cibercidadãos", porém existe uma defasagem entre as
políticas de inclusão tecnológica, as ações de implementação e o letramento
digital que dificulta a verdadeira inclusão.
Em resumo: quando chegar o dia em que os caixas eletrônicos com leitor biométrico
tenham tantos usuários quanto os caixas convencionais, neste dia estaremos um passo
mais perto da "inclusão".