domingo, 2 de junio de 2019

Inclusão digital e letramento digital andam lado a lado: "Bota o dedo no leitor, menino!"


Sim, pessoal, eu sei, desculpem! Sei que já falei disso muitas vezes em nossa aula, mas não consigo evitá-lo: preciso repetir a história. Não é possível falar de inclusão e letramento digitais sem narrar a que foi a minha maior experiência de (des)letramento e (des)inclusão digital que eu já vivi na minha vida. Estou falando, obviamente, do dia que eu mexi o dedo nesse lugar tão desconhecido para mim.

Com poucos dias de ter chegado no Brasil, cada trâmite era em sim mesmo um universo para conquistar: autenticar documentos, me registrar na polícia migratória, matricular as disciplinas, encontrar uma casa, andar à Faculdade sem me perder, aprender a diferença entre térreo e primeiro andar, e ‒ claro ‒ abrir uma conta no banco. Esse último trâmite foi o mais surpreendente. Já verão...

Não só tive que me enfrentar a pouca amabilidade da moça que me repetia que eu, sendo estrangeiro, não poderia abrir uma conta, ainda que o resto dos meus colegas conseguiram fazê-lo antes que eu; também precisei cadastrar o meu cartão no caixa eletrônico, com um trâmite muito “simples” e “rapidão” de duas horas, que, além do mais, requeria cadastrar “meu dedo”, e aí, galera, como falam os brasileiros, aí o bicho pegou e comeu.


Poucas vezes me senti tão ignorante (“polo”, falaríamos na Costa Rica). Analfabeto e excluído. Nem conseguia atender as instruções do funcionário:
  • insira o cartão,
  • tire ele,
  • insira de novo,
  • bote o dedo,
  • assim não (assim),
  • ficou mal,
  • bote de novo,
  • digite o CPF,
  • digite o seu telefone,
  • rápido, a sessão vai expirar,
  • não sabe o seu telefone?

(eu: desculpa, comprei a línea hoje, sou um desconsiderado)
  • Marque o nome da sua mãe

(Na minha mente: Brasil e essa obsessão esquisita com as mães. Mesmo para comprar um acarajé precisam o nome dela!)
  • A sessão expirou, vamos precisar repetir o procedimento todo.

E enquanto isso acontecia, eu só pensava que queria chegar em casa para organizar uma chamada de vídeo e contar para todos na Costa Rica que no Brasil é possível sacar dinheiro do caixa eletrônico com o dedo.

Dias depois soube que há muitas pessoas em Brasil que ainda não usam esses caixas por “medo”. As sociedades modernas procuram a inclusão dos seus habitantes; elas querem ter o que alguns autores chamam "cibercidadãos", porém existe uma defasagem entre as políticas de inclusão tecnológica, as ações de implementação e o letramento digital que dificulta a verdadeira inclusão. 

Em resumo: quando chegar o dia em que os caixas eletrônicos com leitor biométrico tenham tantos usuários quanto os caixas convencionais, neste dia estaremos um passo mais perto da "inclusão".




1 comentario:

  1. Não sei se rio ou se choro. A história é engraçada, mas as implicações que levaram a ela são dramáticas. Nossas instituições vão se "modernizando", mas sem levar em conta os sujeitos sociais, seus momentos de vida, suas origens, sua formação, ou seja, acabam aumentando a leva de "excluídos". Isso sem falar das competências dos mediadores que deveriam atuar de forma pedagógica, mas acabam gerando ainda mais estresse e desconfiança na população. Veja que se você, um pṍs-graduando, teve dificuldades, o que será dos sujeitos com baixa escolaridade?

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